Taiza Tosatt Eleoterio salienta: O papel do acompanhamento contínuo após a saída de uma relação abusiva

Ida Valdsen
6 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

Sair fisicamente de uma relação abusiva, como explica Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com intervenção no apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, é apenas uma etapa do recomeço após o abuso, e não o encerramento do processo. Grande parte do trabalho emocional começa precisamente depois da ruptura, quando os efeitos psicológicos da relação continuam presentes.

Isto acontece porque os efeitos psicológicos de uma relação abusiva não desaparecem no momento da saída. Padrões de pensamento, reacções automáticas de defesa e dificuldades em confiar permanecem presentes, mesmo quando a fonte directa do sofrimento já não faz parte da rotina diária.

Porque é que a saída da relação não encerra o sofrimento emocional?

Existe uma expectativa comum de que, uma vez fora da relação, o bem-estar regressa automaticamente. Na prática, o corpo e a mente continuam a funcionar, durante algum tempo, com os mesmos mecanismos de alerta desenvolvidos ao longo da relação.

Taiza Tosatt Eleoterio explica que este período de transição costuma ser um dos mais delicados, precisamente porque a pessoa já não está sob ameaça directa, mas continua a reagir como se estivesse. Neste sentido, reconhecer esta diferença entre a situação real e a resposta emocional é essencial para compreender porque é que o apoio continua a ser necessário mesmo depois de a ruptura ter acontecido.

O que costuma surgir nos primeiros meses após a ruptura?

Nos primeiros meses depois da saída, é comum surgirem sentimentos contraditórios: alívio misturado com culpa, força acompanhada de insegurança relativamente à própria decisão. Estes sentimentos não indicam arrependimento, mas fazem parte de um processo de reorganização emocional complexo.

Taiza Tosatt Eleoterio salienta que ignorar estes sentimentos, ou tratá-los como um sinal de fraqueza, tende a prolongar o sofrimento. Reconhecê-los como parte esperada do processo permite que a pessoa avance sem se exigir sentir algo que, na realidade, é bastante comum nesta fase de reorganização.

Esta fase também costuma trazer momentos de dúvida sobre a própria percepção do que foi vivido, sobretudo quando ainda não existe uma rede de apoio consolidada capaz de confirmar e validar essas memórias. Ter um espaço regular de escuta durante este período ajuda a organizar estes sentimentos antes que se transformem em culpa desnecessária ou em desconfiança relativamente à própria decisão de sair.

Porque é que o risco de regressar à relação existe mesmo depois da saída?

Um dos aspectos menos discutidos sobre o rompimento de relações abusivas é o risco de regressar, sobretudo nos primeiros meses. Este risco não está necessariamente relacionado com falta de convicção, mas com a intensidade do vínculo de dependência emocional construído ao longo do tempo.

Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento contínuo funciona como um apoio precisamente nestes momentos de maior vulnerabilidade, ajudando a pessoa a reconhecer sinais de recaída emocional antes que estes se transformem em decisões concretas de regressar à relação anterior.

Como é que o acompanhamento ajuda na reconstrução da identidade pessoal?

As relações abusivas tendem a corroer, gradualmente, a identidade de quem as vive, deixando marcas na forma como a pessoa se vê e se relaciona com o próprio valor. Reconstruir essa identidade exige tempo e um espaço seguro para reconhecer aquilo que, de facto, pertence a si própria.

Tal como observa Taiza Tosatt Eleoterio, este processo de reconstrução raramente acontece de forma linear, com avanços e recuos que fazem naturalmente parte do percurso. O acompanhamento contínuo oferece um ponto de referência estável ao longo desse caminho, algo que muitas vezes falta precisamente no momento em que mais se precisa dele.

Porque é que o acompanhamento contínuo é um investimento e não um prolongamento do sofrimento?

Muitas pessoas evitam manter o acompanhamento depois da saída por acreditarem que isso significaria continuar “presa” ao sofrimento vivido. Esta interpretação inverte a lógica real do processo: o acompanhamento não prolonga o sofrimento; sustenta a reconstrução.

Além disso, manter este apoio reduz a possibilidade de que sinais de alerta passem despercebidos, uma vez que um olhar profissional continua a acompanhar de perto aquilo que a própria pessoa, ainda em processo de reorganização emocional, pode não conseguir identificar sozinha. Este acompanhamento funciona, neste sentido, como uma rede de segurança silenciosa ao longo de todo o período de transição.

Por fim, como indica Taiza Tosatt Eleoterio, recomeçar não é um acontecimento único, mas um processo que se prolonga pelo tempo necessário para que a pessoa consiga reconstruir, de facto, uma vida afastada dos padrões vividos anteriormente.

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