Produção nacional deverá aumentar 12% na próxima vindima, enquanto a procura continua pressionada; acumulação de stocks e dificuldades no escoamento deixam viticultores preocupados com a campanha de 2026
O sector vitivinícola português aproxima-se de uma nova vindima num cenário particularmente desafiante. Portugal deverá produzir cerca de 6,7 milhões de hectolitros de vinho na campanha de 2026/2027, o que corresponde a um aumento de aproximadamente 12% face à campanha anterior. O crescimento acontece, porém, num momento em que o consumo mundial continua a diminuir e várias regiões enfrentam dificuldades no escoamento dos vinhos já existentes. (ECO)
As estimativas do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) apontam para uma recuperação da produção depois de uma campanha anterior mais reduzida. Apesar do aumento previsto, o volume deverá permanecer cerca de 4% abaixo da média das últimas cinco campanhas. O problema, portanto, não está simplesmente na dimensão da próxima colheita, mas no desequilíbrio entre aquilo que o sector consegue produzir e aquilo que o mercado consegue absorver. (ECO)
A situação ganha particular importância no Douro, onde produtores têm alertado para dificuldades na venda das uvas. A Casa do Douro denunciou recentemente cancelamentos de encomendas por parte de compradores, numa altura em que muitos viticultores já suportaram praticamente todos os custos necessários para preparar a vindima. (Diário de Notícias)
Produção deverá recuperar 12% em Portugal
A previsão de 6,7 milhões de hectolitros representa uma recuperação significativa da produção nacional. Existem, contudo, diferenças consideráveis entre regiões vitivinícolas.
O Douro está entre as regiões onde é esperado um crescimento mais expressivo, com uma subida estimada em cerca de 25% relativamente à campanha anterior. No Alentejo, a previsão aponta igualmente para crescimento, na ordem dos 15%. Beira Interior e Távora-Varosa deverão apresentar valores próximos dos registados na campanha passada. (Diário de Notícias)
Uma produção maior seria, em condições normais, uma notícia positiva para os produtores. O contexto actual é diferente porque existe vinho acumulado e a procura internacional não acompanha a capacidade produtiva do sector.
O desafio é encontrar compradores suficientes para a nova produção sem agravar a pressão sobre preços e stocks.
Consumo mundial de vinho está a diminuir
A redução do consumo não é um fenómeno exclusivamente português. Um estudo do Instituto Superior Miguel Torga citado pela imprensa portuguesa concluiu que, entre 2000 e 2023, o excedente acumulado de vinho a nível mundial equivale a aproximadamente três anos de consumo global. (Diário de Notícias)
Desde 2018, o consumo mundial terá diminuído, em média, cerca de 1,75% por ano, enquanto a produção recuou apenas aproximadamente 0,3% anualmente. Esta diferença ajuda a explicar a acumulação de vinho e a pressão sentida pelos produtores. (Diário de Notícias)
Portugal está exposto a esta transformação porque possui um sector vitivinícola fortemente orientado para mercados externos. Em 2025, as exportações portuguesas de vinho atingiram 954 milhões de euros, segundo dados destacados pelo ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes. (Diário de Notícias)
Quando o consumo abranda nos principais mercados, o impacto pode percorrer toda a cadeia: distribuidores reduzem encomendas, empresas acumulam inventário e produtores encontram maiores dificuldades para vender uvas.
Douro enfrenta situação particularmente difícil
É no Douro que os sinais da crise se tornaram mais visíveis. A Casa do Douro afirmou ter recebido vários cancelamentos de encomendas e alertou que parte da produção poderá não encontrar comprador durante a vindima. (Diário de Notícias)
Segundo representantes dos viticultores, algumas casas compradoras indicaram estar interessadas sobretudo nas uvas destinadas à produção de vinho do Porto, deixando menor procura para uvas destinadas a outros vinhos.
A situação preocupa os produtores porque grande parte das despesas da campanha ocorre antes da vindima. Tratamentos da vinha, mão-de-obra, equipamentos, combustível e outros custos são suportados durante meses, enquanto a receita depende essencialmente da venda das uvas no final do ciclo.
Se não houver comprador, o produtor pode terminar o ano agrícola sem conseguir recuperar uma parte significativa do investimento realizado.
Vinho do Porto também enfrenta mudança no consumo
O problema estrutural torna-se especialmente evidente quando se observa a evolução do vinho do Porto.
O produtor Óscar Quevedo afirmou que a capacidade instalada das vinhas ainda corresponde a níveis de consumo registados há duas ou três décadas, enquanto o consumo de vinho do Porto caiu pelo menos cerca de um terço. (Diário de Notícias)
Esta diferença entre capacidade produtiva e procura ajuda a explicar a acumulação de inventários e a redução das quantidades que o mercado consegue absorver.
Mesmo quando existe procura, os preços pagos pelas uvas podem não ser suficientes para compensar os custos crescentes da produção, sobretudo para pequenos viticultores.
Menor produção anterior não resolveu problema dos stocks
A dimensão do problema fica ainda mais clara quando se observa o que aconteceu na campanha passada.
No Douro, a produção caiu aproximadamente 40%, mas essa redução não foi suficiente para eliminar os stocks existentes nem para resolver as dificuldades financeiras dos produtores. (Diário de Notícias)
Isto significa que uma colheita menor, por si só, não conseguiu reequilibrar o mercado. Agora, perante uma previsão de recuperação da produção em 2026, aumenta a preocupação sobre a capacidade de absorção das novas uvas e do vinho resultante.
O desafio passa, assim, por encontrar mecanismos que permitam aproximar progressivamente a oferta da procura sem provocar uma queda abrupta dos rendimentos das famílias que dependem da viticultura.
Governo prepara resposta para o sector
O Governo reconhece as dificuldades e afirma estar a desenvolver medidas destinadas a corrigir o desequilíbrio.
No Douro, foi aprovado o Plano de Acção para a Gestão Sustentável do Sector Vitivinícola da Região Demarcada do Douro, apresentado pelo Executivo como uma reforma estrutural destinada a equilibrar oferta e procura e melhorar a sustentabilidade económica da pequena e média viticultura. (Diário de Notícias)
O Governo refere igualmente a mobilização de 15 milhões de euros em apoio directo aos pequenos produtores e o reforço das verbas destinadas à promoção externa dos vinhos portugueses para 34 milhões de euros. (Diário de Notícias)
A estratégia passa não apenas por responder à crise imediata, mas também por tentar aumentar o valor acrescentado dos vinhos portugueses e encontrar novos mercados internacionais.
Destilação pode ajudar a retirar excedentes
Entre as soluções discutidas para responder ao excesso de vinho encontra-se a destilação.
Este mecanismo permite retirar parte da produção do mercado tradicional, transformando vinho ou uvas em álcool para outras utilizações. Dessa forma, reduz-se a quantidade disponível para comercialização e procura-se diminuir a pressão sobre os preços.
A Casa do Douro defendeu uma intervenção urgente e pediu ao Governo que acolha uma recomendação aprovada na Assembleia da República que prevê a aquisição de uvas destinadas à destilação por um valor mínimo de 90 cêntimos por quilograma. (Diário de Notícias)
Para os produtores, uma medida deste género poderia funcionar como uma rede de segurança numa campanha em que existe o risco de determinadas uvas ficarem sem comprador.
Sector precisa de conquistar novos consumidores
A crise também levanta uma questão de longo prazo: como adaptar a indústria portuguesa a hábitos de consumo que estão a mudar.
Os consumidores mais jovens tendem a beber menos vinho do que gerações anteriores, enquanto outras bebidas disputam espaço no mercado. Questões relacionadas com saúde, preço e novos estilos de vida também influenciam a evolução da procura internacional.
Nesse cenário, aumentar continuamente a produção sem conquistar novos consumidores ou mercados pode intensificar os excedentes.
A internacionalização, o desenvolvimento de produtos com maior valor acrescentado, a promoção das denominações de origem e o enoturismo surgem, por isso, entre as estratégias utilizadas pelo sector para diversificar receitas.
Vindima de 2026 será decisiva para o Douro
As próximas semanas serão particularmente importantes. Algumas uvas destinadas a espumantes começam a ser vindimadas mais cedo, enquanto a campanha principal deverá ganhar intensidade à medida que o Verão se aproxima do fim. (Diário de Notícias)
Para muitos viticultores, a principal preocupação já não é apenas saber quanto irão produzir, mas se conseguirão vender aquilo que colherem e a que preço.
A previsão de crescimento de 12% da produção nacional mostra que Portugal mantém uma forte capacidade vitivinícola. Ao mesmo tempo, a queda estrutural do consumo demonstra que produzir mais deixou de significar necessariamente obter mais rendimento.
O desafio para Portugal será encontrar um novo equilíbrio entre produção, stocks e procura. No Douro, onde a viticultura tem uma importância económica, social e cultural particularmente elevada, o resultado dessa transformação poderá determinar não apenas o futuro das empresas de vinho, mas também a sobrevivência económica de milhares de pequenos produtores e a continuidade de uma paisagem agrícola construída ao longo de gerações.
Fontes: Dinheiro Vivo — Portugal está a produzir muito mais vinho do que o mercado quer · Dinheiro Vivo — Viticultores do Douro pedem intervenção do Governo · Dinheiro Vivo — entrevista ao ministro da Agricultura sobre a crise do sector · ECO — previsão da produção de vinho para a próxima vindima