Projecto-piloto leva serviços bancários essenciais a freguesias sem balcões ou caixas automáticas próximas.
O Governo português avançou com o projecto-piloto Multibanco + Perto, uma medida política orientada para combater a exclusão financeira em zonas do interior onde milhares de cidadãos vivem sem acesso próximo a serviços bancários básicos. A iniciativa foi lançada na freguesia de Tó, em Mogadouro, distrito de Bragança, e resulta de uma colaboração entre o Ministério da Economia e da Coesão Territorial, o Banco de Portugal, a SIBS e a Associação Nacional de Freguesias. O objectivo é garantir que populações envelhecidas, isoladas ou com dificuldades de mobilidade possam levantar dinheiro, consultar saldos, pagar serviços e realizar operações essenciais sem percorrer longas distâncias. Segundo o Governo, esta fase piloto poderá abranger até 30 freguesias e servir de base para uma futura expansão nacional. A medida ganha relevância política porque toca num problema estrutural: o encerramento de balcões bancários e a concentração de serviços nos centros urbanos. (Governo de Portugal)
Porque é que o acesso ao Multibanco se tornou uma questão política?
Durante anos, o encerramento de balcões bancários e a redução de caixas automáticas foram tratados sobretudo como decisões comerciais das instituições financeiras. No entanto, nas regiões do interior, estas mudanças passaram a afectar directamente a vida quotidiana das populações. Para muitos idosos, pequenos comerciantes e famílias sem transporte próprio, levantar dinheiro ou pagar uma conta pode implicar deslocações demoradas, custos adicionais e dependência de terceiros.
É por isso que o Governo apresenta o Multibanco + Perto como uma medida de coesão territorial. O projecto utiliza terminais SmartPOS instalados e geridos com apoio das juntas de freguesia, permitindo realizar cerca de 90% das operações mais usadas nos caixas Multibanco. Entre os serviços previstos estão levantamentos, pagamentos, carregamentos de telemóvel e consultas de saldo e movimentos. A solução também pode deslocar-se até pessoas com mobilidade reduzida, o que transforma uma ferramenta tecnológica numa resposta social de proximidade. (Governo de Portugal)
Que freguesias são abrangidas e quem pode beneficiar?
O projecto arrancou em Tó, no concelho de Mogadouro, uma zona representativa dos desafios sentidos em várias regiões do interior. Segundo o Governo, o serviço chegará também a freguesias de Mértola, no distrito de Beja, e posteriormente à freguesia da Coriscada, em Mêda, no distrito da Guarda. A fase piloto deverá abranger até 30 freguesias, permitindo avaliar a adesão das populações, a segurança das operações e a capacidade das juntas para gerir a disponibilização de numerário. (Governo de Portugal)
O impacto pode ser especialmente relevante para idosos, reformados, pequenos negócios locais e cidadãos que ainda dependem fortemente de dinheiro físico. Apesar do avanço dos pagamentos digitais, muitas pessoas continuam a usar numerário para compras diárias, farmácia, transportes ou pagamentos informais. De acordo com dados citados pelo Governo a partir de um relatório do Banco de Portugal, cerca de 1.200 freguesias portuguesas não dispõem de serviços bancários a menos de 5, 10 ou 15 quilómetros, o que mostra a dimensão nacional do problema. (Governo de Portugal)
O que esta decisão revela sobre o futuro dos serviços públicos?
A medida mostra que a digitalização dos serviços não pode ignorar as desigualdades territoriais. Em teoria, cada vez mais operações bancárias podem ser feitas através da internet ou de aplicações móveis. Na prática, muitos portugueses vivem em zonas com população envelhecida, baixa literacia digital ou menor acesso a transportes e redes de apoio. Nesses territórios, a ausência de um ponto físico de atendimento continua a ter consequências sociais e económicas.
Politicamente, o Multibanco + Perto coloca as juntas de freguesia no centro da resposta de proximidade. São estas entidades que conhecem melhor as necessidades locais e que poderão assegurar a ligação entre tecnologia, população e serviços essenciais. Se o projecto funcionar, poderá tornar-se um modelo para outras áreas, como atendimento público, saúde digital, apoio social e serviços administrativos. O desafio será garantir financiamento, segurança, formação e capacidade operacional para que a solução não fique limitada a uma experiência pontual.
Para os portugueses que vivem fora dos grandes centros urbanos, esta iniciativa pode representar mais do que a instalação de um novo equipamento. Pode significar autonomia, dignidade e redução do isolamento. A decisão do Governo também envia uma mensagem política clara: o acesso a serviços financeiros básicos passou a ser entendido como parte da coesão territorial e da igualdade de oportunidades. Nos próximos meses, o sucesso do projecto dependerá da adesão das freguesias, da confiança dos cidadãos e da capacidade de transformar uma resposta piloto numa política pública permanente.
Fontes:
- Portal do Governo de Portugal – Multibanco + Perto leva serviços bancários a populações do interior
Portal do Governo de Portugal – Multibanco + Perto - Portal do Governo de Portugal – Comunicações oficiais do XXV Governo Constitucional
Portal do Governo de Portugal - ECO – “Multibanco + Perto” arranca em 30 freguesias e quer chegar a 700 mil pessoas (6 de julho de 2026)
ECO – Multibanco + Perto arranca em 30 freguesias - Banco de Portugal – Relatório “Avaliação da Cobertura da Rede de Caixas Automáticos e Balcões de Instituições de Crédito”
Banco de Portugal - Diário de Notícias – Governo quer juntas a entregar dinheiro em freguesias onde não forem instalados multibancos
Diário de Notícias – Governo quer juntas a entregar dinheiro em freguesias sem multibancos