Portugal aposta em vistos rápidos e mais de 400 milhões de euros para liderar a inteligência artificial até 2030

Diego Velázquez
9 Min de leitura

Agenda Nacional de IA promete acelerar a entrada de especialistas estrangeiros e criar um centro de excelência na Administração Pública.

Portugal aprovou, no início deste ano, um plano que pode mudar a forma como o país lida com a inteligência artificial nos próximos anos. Trata-se da Agenda Nacional de Inteligência Artificial, conhecida pela sigla ANIA, que reúne 32 medidas e um investimento superior a 400 milhões de euros, na sua maioria proveniente de fundos europeus. O objetivo é claro: tirar Portugal da cauda da produtividade europeia e transformar a inteligência artificial numa ferramenta concreta para empresas, trabalhadores e serviços públicos.

Muitos portugueses já sentem o impacto da inteligência artificial no dia a dia, mas continuam com dúvidas sobre o que o Governo está realmente a fazer nesta área e o que vai mudar a partir de agora. Entre as medidas mais comentadas está a criação de um regime de vistos acelerados para atrair investigadores e profissionais altamente qualificados, batizado de “AI Fast Track”. Compreender como este plano se vai desenrolar ao longo dos próximos meses ajuda a perceber não só o que o Estado vai fazer, mas também que oportunidades podem surgir para quem trabalha ou quer trabalhar com tecnologia em Portugal.

O que prevê a Agenda Nacional de Inteligência Artificial

A ANIA foi aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, publicada em janeiro, e tem como ponto de partida um diagnóstico que o próprio Governo assume sem rodeios: Portugal representa atualmente apenas 75 por cento da produtividade média da União Europeia. Segundo o documento oficial, a rápida adoção de inteligência artificial pode acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao produto interno bruto do país e elevar até 2,7 pontos percentuais o contributo da produtividade para o crescimento económico. Esta estimativa não se limita aos modelos de linguagem mais conhecidos do público, já que a estratégia também abrange redes neuronais para análise de imagens, sistemas de previsão e ferramentas de otimização aplicadas a áreas como a saúde, a indústria e a economia azul. JusPTDiariodarepublica

Entre as medidas com calendário mais definido está o lançamento de um regime de vistos acelerados para investigadores e profissionais de áreas críticas de inteligência artificial, naquelas em que falte talento nacional. Segundo o jornal económico ECO, o Governo prevê implementar no segundo semestre de 2026 este regime, que envolve a Agência para a Integração, Migrações e Asilo, sendo que já existe atualmente um regime de vistos acelerados emitidos em até 20 dias para trabalhadores. Paralelamente, está prevista a criação de uma plataforma nacional que liga estudantes e investigadores de inteligência artificial a empresas e à Administração Pública com necessidade deste tipo de talento, num esforço para travar a fuga de profissionais qualificados para o estrangeiro. sapo

Como a tecnologia vai chegar às empresas e ao Estado

Para as pequenas e médias empresas, que representam a maior parte do tecido empresarial português, a Agenda prevê uma plataforma com soluções de inteligência artificial do tipo “low code” e “no code”, ou seja, ferramentas que não exigem conhecimentos técnicos avançados para serem implementadas. De acordo com o ECO, os produtos disponibilizados nesta plataforma terão de demonstrar, através de um sistema de certificação claro, um bom nível de qualidade, robustez e conformidade regulatória. Esta exigência surge num contexto em que o Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, o chamado AI Act, já está progressivamente em vigor, obrigando até as soluções mais simples a cumprir regras de avaliação de risco. sapo

Já no que toca à Administração Pública, o Governo destinou 25 milhões de euros à adoção de inteligência artificial nos serviços do Estado. Uma das apostas centrais é a criação de um Centro de Excelência em IA, com a missão de desenvolver e escalar soluções aplicadas a áreas como saúde, justiça e defesa. Segundo o ECO, o centro terá ainda como função assegurar a coordenação entre entidades públicas e promover parcerias estratégicas, ao mesmo tempo que serão lançados concursos nacionais anuais para identificar soluções inovadoras de inteligência artificial aplicáveis ao setor público. O ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, lidera este processo, que inclui também o desenvolvimento de um guia oficial para orientar a contratação pública de soluções de inteligência artificial, evitando que a burocracia trave a adoção da tecnologia. sapo

O que esperar da inteligência artificial em Portugal nos próximos anos

A questão que mais preocupa os trabalhadores portugueses é, sem surpresa, o impacto da automatização nos seus empregos. A própria Agenda reconhece esta preocupação e prevê programas de requalificação profissional dirigidos a setores mais expostos à automatização, além de um suplemento de financiamento para doutoramentos e projetos de investigação em áreas ligadas à responsabilidade da inteligência artificial, como a economia do trabalho e a auditoria de algoritmos. Um inquérito recente da Boston Consulting Group, divulgado pela AICEP, mostra que cerca de seis em cada dez portugueses sentem que precisam de mais formação para integrar a inteligência artificial no seu dia a dia profissional, sendo que apenas dois em cada dez tiveram alguma formação específica até agora. Estes dados ajudam a explicar por que razão o Governo decidiu colocar o talento e a formação no centro da estratégia nacional. AICEP

Do lado institucional, o tema também já chegou à Presidência da República. Numa intervenção pública em junho, o Presidente António José Seguro alertou que Portugal e a União Europeia não podem ter uma atitude passiva perante o avanço tecnológico e a inteligência artificial, sublinhando que esta é também uma questão política e civilizacional que agudiza os efeitos das mudanças nas relações entre Estados. O chefe de Estado defendeu ainda que os países capazes de integrar estas tecnologias nas empresas e na sociedade sairão reforçados, ao contrário dos que ficarem apenas na posição de consumidores da tecnologia desenvolvida por terceiros. Esta visão reforça a pressão para que medidas como o Centro de Excelência em IA e o regime de vistos acelerados avancem dentro do calendário previsto, já que o sucesso da Agenda Nacional depende em larga medida da capacidade de execução nos próximos semestres. PÚBLICO

A aposta portuguesa em inteligência artificial está, assim, a ganhar forma através de medidas concretas que vão muito além do discurso político habitual sobre inovação. Entre vistos acelerados, plataformas de talento e um centro de excelência na Administração Pública, o país tenta posicionar-se de forma competitiva num momento em que a tecnologia avança a uma velocidade que poucos governos conseguem acompanhar. Os próximos meses, sobretudo a partir do segundo semestre de 2026, serão decisivos para verificar se estas medidas saem do papel e chegam, de facto, às empresas e aos profissionais que mais precisam delas.

Fontes consultadas:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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