Desafios da gestão familiar multigeracional: Como Rodrigo Gonçalves Pimentel interpreta a preservação patrimonial?

Diego Velázquez
8 Min de leitura
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado e filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, costuma usar uma imagem para descrever o que acontece com famílias empresariais que chegam à terceira geração sem uma estrutura de governança robusta: a de um navio que foi construído para uma tripulação pequena e coesa, mas que precisa agora acomodar dezenas de pessoas com destinos diferentes e autoridades sobrepostas. O patrimônio é o mesmo. O navio é o mesmo. Mas a complexidade de navegar com ele cresceu de forma que a estrutura original não foi projetada para suportar. 

Continue a leitura para entender por que a governança multigeracional exige uma abordagem distinta e quais são os elementos que determinam se uma família consegue atravessar essa transição com o patrimônio e a coesão intactos.

O que muda da primeira para a terceira geração?

Na primeira geração, a governança de uma empresa familiar é, na maioria dos casos, informal e personalista. O fundador decide, os demais seguem, e a autoridade é exercida pela combinação de competência, carisma e propriedade concentrada. Esse modelo funciona enquanto a figura central está presente e enquanto o círculo de pessoas envolvidas é pequeno o suficiente para ser gerido por relações diretas e pela confiança mútua que a convivência próxima produz.

Rodrigo Gonçalves Pimentel
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Rodrigo Gonçalves Pimentel frisa que a transição para a segunda geração já exige adaptações significativas nesse modelo, mas é na terceira geração que a ruptura se torna inevitável. Com múltiplos ramos familiares, herdeiros que não se conhecem da mesma forma que seus pais e avós se conheciam e interesses que divergem de forma cada vez mais pronunciada, a governança informal colapsa sob seu próprio peso. O que funcionava como confiança mútua se transforma em suspeita recíproca, e o que era consenso natural passa a exigir negociação formal para cada decisão relevante.

Por que a terceira geração representa um ponto de inflexão crítico?

Há um padrão documentado na literatura sobre empresas familiares que ficou conhecido pela expressão da geração que constrói, da geração que mantém e da geração que destrói. Embora simplificado, esse padrão captura uma realidade estatística relevante: a terceira geração é, historicamente, o momento de maior vulnerabilidade para a continuidade de um grupo econômico familiar. Não porque os netos sejam menos capazes do que os avós, mas porque chegam a uma estrutura de complexidade muito maior sem as ferramentas de governança necessárias para gerenciá-la.

Para Rodrigo Gonçalves Pimentel, o problema central da terceira geração não é a competência individual dos herdeiros, mas a ausência de um sistema que organize suas relações, distribua poder de forma legítima e crie mecanismos de decisão que funcionem independentemente da qualidade das relações pessoais entre os membros da família. Quando esse sistema não existe, a terceira geração herda não apenas o patrimônio, mas também toda a complexidade não resolvida das gerações anteriores, frequentemente sem os recursos emocionais e institucionais para lidar com ela.

Quais elementos de governança são indispensáveis para famílias multigeracionais?

A governança de uma família na terceira geração ou além exige instrumentos que vão além dos utilizados nas fases anteriores. Entre os elementos que se tornam indispensáveis nesse estágio, destacam-se:

  • O conselho de família, fórum específico para as questões que dizem respeito às relações entre os membros da família como grupo, distinto do conselho de administração que governa os negócios, e responsável por manter a coesão familiar e por resolver conflitos antes que eles migrem para a esfera societária;
  • O protocolo familiar atualizado, que precisa ser revisado a cada geração para refletir os valores, as regras e as expectativas de um grupo que cresceu e se diversificou, garantindo que o documento continue sendo uma referência viva e não um registro histórico desconectado da realidade presente;
  • Os critérios claros de pertencimento e de participação, que definem quem faz parte da família para fins societários, quais são os direitos e as responsabilidades de cada membro e como novos membros, sejam eles herdeiros ou cônjuges, são integrados à estrutura;
  • Os mecanismos de liquidez para herdeiros que desejam se retirar da estrutura, que permitem a saída organizada de membros que não desejam permanecer na sociedade sem comprometer a continuidade do grupo para os que ficam.

Rodrigo Gonçalves Pimentel elucida que a ausência de qualquer um desses elementos em uma família na terceira geração não é apenas uma lacuna de governança. É uma vulnerabilidade ativa que cresce a cada ano sem resolução e que tende a se manifestar nos momentos de maior pressão, quando a capacidade da família de lidar com ela de forma construtiva já está comprometida pelo acúmulo de tensões não resolvidas.

Como manter a coesão familiar quando o grupo cresce e se diversifica?

A coesão de uma família empresarial na terceira geração ou além não é um estado natural. É uma conquista que precisa ser ativamente cultivada por meio de práticas, rituais e estruturas que mantenham vivo o sentido de pertencimento a um projeto comum, mesmo entre membros que têm trajetórias de vida, interesses e visões de mundo cada vez mais distintas.

Famílias que conseguem manter essa coesão ao longo de múltiplas gerações invariavelmente investem de forma deliberada em três dimensões complementares: a dimensão institucional, que organiza as relações por meio de instrumentos jurídicos e de governança claros; a dimensão educacional, que prepara cada geração para compreender e valorizar o patrimônio e o legado que está sendo transmitido; e a dimensão cultural, que mantém vivos os valores e os princípios que deram origem ao grupo e que continuam orientando suas decisões mesmo quando nenhum documento está sendo consultado.

Governança multigeracional como projeto de longo prazo

Construir uma governança capaz de sustentar uma família empresarial ao longo de múltiplas gerações não é um projeto que se conclui. É um processo contínuo de adaptação, revisão e renovação que precisa acompanhar a evolução do grupo familiar e do contexto em que ele opera. Famílias que tratam a governança como um projeto permanente, e não como um problema a ser resolvido uma única vez, constroem uma resiliência institucional que nenhuma estrutura estática consegue oferecer.

Conforme avalia Rodrigo Gonçalves Pimentel, o maior legado que uma geração pode deixar para a próxima não é apenas o patrimônio acumulado, mas a estrutura de governança que permite à geração seguinte gerenciar esse patrimônio com clareza, critério e a consciência de que o que foi recebido é também uma responsabilidade que merece ser preservada e ampliada com o mesmo cuidado com que foi construída.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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