A criminalidade juvenil registada na área de responsabilidade territorial da Guarda Nacional Republicana (GNR) aumentou 11,6% no primeiro semestre de 2026, face ao mesmo período do ano anterior. Entre janeiro e junho, foram contabilizadas 797 ocorrências envolvendo jovens até aos 16 anos, contra 714 participações nos primeiros seis meses de 2025.
Os dados foram divulgados pela Guarda Nacional Republicana e noticiados pela RTP Notícias a 4 de outubro de 2026. Apesar do crescimento global das ocorrências, a evolução não correspondeu a um aumento generalizado dos crimes violentos: esse grupo registou uma descida expressiva no período.
Crimes violentos e graves diminuíram 44%
Segundo a GNR, os crimes violentos e graves passaram de 25 para 14 casos, o que representa uma redução de 44%. Entre as ocorrências que contribuíram para esta descida estão os roubos na via pública e as ofensas graves à integridade física.
A estrutura dos registos mostra, assim, um cenário diferente daquele que poderia resultar apenas da leitura do número total. O aumento das participações foi acompanhado por uma redução dos casos classificados como mais graves, enquanto os episódios mais frequentes estiveram associados a ofensas à integridade física simples e a situações de ameaça ou coação.
As ofensas à integridade física simples somaram 212 participações no primeiro semestre. Já os crimes de ameaça e coação totalizaram 76 casos. Estes foram os tipos de ocorrência mais representados entre os registos de criminalidade juvenil acompanhados pela força de segurança.
Conflitos passam também pelo meio digital
Uma das principais tendências identificadas pela GNR está relacionada com a utilização da internet, das redes sociais e de outros canais de difusão. Os casos de devassa por meio informático ou através destes canais aumentaram de cinco para 13, uma subida de 160% em termos homólogos.
A força de segurança associa esta evolução à crescente projeção do ciberbullying entre os mais jovens. A transferência de conflitos para o ambiente digital pode ampliar a exposição das vítimas e prolongar situações que anteriormente ficariam limitadas ao espaço escolar ou às relações presenciais, embora os dados divulgados não permitam concluir que todos os casos tenham a mesma origem.
O crescimento dos delitos digitais surge ao lado de aumentos nas ocorrências relacionadas com condução sem habilitação legal, furto em estabelecimentos comerciais e tráfico de estupefacientes. A informação divulgada pela GNR não apresenta, na pauta, o número individual de casos para cada uma destas categorias.
Setúbal lidera participações registadas
A distribuição territorial das ocorrências também revela diferenças entre os distritos abrangidos pela GNR. Setúbal concentrou 142 participações, seguido de Faro, com 98, Lisboa, com 96, e Porto, com 79. Estes valores correspondem aos distritos com maior número de registos no período analisado.
Em termos temporais, a maior concentração ocorreu nos dias úteis, entre as 13h00 e as 18h00. A GNR relaciona este intervalo com as saídas dos estabelecimentos de ensino e as deslocações dos estudantes, período em que aumentam as interações entre jovens em espaços públicos e nos trajetos escolares.
A leitura dos dados deve ter em conta que a área analisada é a de responsabilidade territorial da GNR, e não necessariamente todo o território nacional em termos uniformes. A comparação apresentada pela força de segurança é feita entre períodos homólogos e diz respeito às ocorrências por si registadas.
Programa Escola Segura reforça prevenção
A prevenção é enquadrada, entre outras respostas, pelo Programa Escola Segura, que inclui vigilância junto dos estabelecimentos de ensino e ações de sensibilização dirigidas a alunos, famílias e comunidades escolares. Entre os temas abordados estão a segurança digital, o bullying, o ciberbullying, os consumos aditivos e a responsabilidade legal.
Na campanha Escola Segura 2026/2027 da GNR, a segurança online e os comportamentos associados ao uso das tecnologias surgem como áreas de sensibilização. A abordagem procura responder a riscos que podem ocorrer dentro e fora da escola, envolvendo não apenas os estudantes, mas também os adultos responsáveis pelo seu acompanhamento.
Os números do primeiro semestre apontam, por isso, para uma realidade com duas dimensões. A criminalidade juvenil em Portugal aumentou no conjunto das participações registadas pela GNR, mas os crimes violentos e graves recuaram de forma significativa. Ao mesmo tempo, os delitos associados ao meio digital ganharam peso, reforçando a necessidade de atenção das escolas, das famílias e das autoridades às novas formas de conflito entre os mais jovens.