Ciberataques contra computadores Mac aumentam 65% em Portugal e colocam empresas em alerta

Diego Velázquez
12 Min de leitura

Dados da ESET mostram que as detecções de ameaças em macOS cresceram em Portugal a um ritmo muito superior ao registado globalmente; phishing representa cerca de 40% das ocorrências detectadas no país

Os computadores Mac estão a tornar-se um alvo cada vez mais relevante para os cibercriminosos em Portugal. Dados divulgados pela ESET indicam que o indicador normalizado de detecções de ameaças em sistemas macOS aumentou 65% no país durante o período analisado no primeiro semestre de 2026. O crescimento é particularmente expressivo quando comparado com a evolução mundial, que ficou nos 38%. (Diário de Notícias)

Os números fazem parte do panorama apresentado no ESET Threat Report H1 2026, que analisa a evolução das ameaças digitais entre Dezembro de 2025 e Maio de 2026. Em Portugal, os dados adicionais fornecidos pela ESET mostram uma pressão crescente não apenas sobre utilizadores de equipamentos Apple, mas também sobre empresas, contas de correio electrónico e serviços de acesso remoto. (Diário de Notícias)

A subida contraria também uma percepção ainda relativamente comum de que os computadores Mac estão praticamente imunes a vírus e outros tipos de software malicioso. Segundo Ricardo Neves, responsável de comunicação da ESET Portugal, o crescimento demonstra sobretudo que o macOS está cada vez mais presente nas campanhas dos atacantes. Importa, contudo, fazer uma distinção: os números referem-se a detecções de ameaças e não necessariamente a infecções bem-sucedidas. (Diário de Notícias)

Roubo de palavras-passe lidera ameaças nos Macs

Entre as ameaças identificadas nos computadores Apple em Portugal, a mais frequente foi o OSX/PSW.Agent, um trojan concebido sobretudo para roubar credenciais e outras informações dos utilizadores.

Esta ameaça representou 31,6% das detecções em macOS registadas no país. Em segundo lugar surgiu o OSX/Keygen, classificado como ferramenta potencialmente insegura, com 17,3%. Programas potencialmente indesejados, como MacBooster e MacKeeper, representaram individualmente 8,2% das detecções. (Diário de Notícias)

Os dados demonstram que os ataques contra utilizadores de Mac não dependem necessariamente de técnicas extremamente sofisticadas. O roubo de credenciais continua a ser uma das principais preocupações porque uma palavra-passe comprometida pode dar acesso a correio electrónico, serviços empresariais, armazenamento na nuvem e outras contas utilizadas diariamente.

Para empresas que utilizam computadores Apple, o crescimento das ameaças reforça a necessidade de aplicar aos Macs políticas de segurança semelhantes às utilizadas nos restantes equipamentos da organização.

Phishing representa cerca de 40% das detecções em Portugal

O problema não se limita ao sistema operativo da Apple. Segundo os dados nacionais divulgados pela ESET, o phishing representa aproximadamente 40% das ocorrências detectadas e bloqueadas pela empresa em Portugal. (Diário de Notícias)

Neste tipo de ataque, os criminosos procuram levar a vítima a acreditar que está perante uma comunicação legítima. Uma mensagem pode aparentar ter sido enviada por um banco, empresa, serviço público, plataforma tecnológica ou até por um colega de trabalho.

O objectivo é normalmente convencer o utilizador a introduzir palavras-passe num endereço falso, fornecer dados pessoais, descarregar um ficheiro malicioso ou realizar determinada operação.

A utilização crescente de ferramentas de inteligência artificial pode tornar algumas destas campanhas mais convincentes, permitindo produzir mensagens mais rapidamente e adaptá-las a diferentes públicos.

Inteligência artificial começa a mudar os próprios ataques

O relatório destaca uma evolução particularmente importante: a utilização de inteligência artificial generativa durante a execução de software malicioso.

Um dos exemplos identificados pela ESET foi o PromptSpy, apresentado como o primeiro malware conhecido para Android a integrar IA generativa em tempo real durante a execução. A ameaça comunicava externamente com um modelo de IA através de uma API, utilizando-o para interpretar elementos apresentados no ecrã e decidir determinadas acções. (Diário de Notícias)

A ESET detectou apenas uma ocorrência do PromptSpy, na Ucrânia, pelo que não existem indicações de uma disseminação desta ameaça em Portugal. O caso é relevante sobretudo pelo precedente tecnológico que estabelece.

Em vez de depender exclusivamente de um conjunto rígido de instruções programadas antecipadamente, futuros programas maliciosos poderão recorrer a modelos de inteligência artificial para interpretar situações e adaptar parte do seu comportamento.

Agentes de IA criam uma nova superfície de ataque

Outro ponto de atenção são os chamados agentes de inteligência artificial, sistemas capazes de utilizar ferramentas e executar tarefas com maior autonomia.

Entre Março e Maio de 2026, a ESET analisou aproximadamente 900 mil “skills” de IA encontradas em repositórios populares. Estas skills funcionam como pequenos componentes que acrescentam capacidades aos agentes. Cerca de 25 mil foram consideradas suspeitas e mais de três mil maliciosas. (ESET)

Isto não significa que tenham ocorrido milhares de ataques em Portugal. Os números são globais e referem-se aos componentes analisados pela empresa.

O risco está principalmente nas permissões concedidas aos agentes. Um assistente empresarial autorizado a consultar documentos, aceder a aplicações ou executar determinadas operações pode tornar-se um ponto de entrada particularmente sensível se utilizar componentes comprometidos.

Ataques contra serviços empresariais também aumentam

As empresas portuguesas enfrentam ainda maior pressão sobre serviços utilizados para acesso e comunicação entre computadores.

De acordo com os dados apresentados pela ESET Portugal, as tentativas de exploração dirigidas a serviços SQL aumentaram 15,5%, enquanto os ataques relacionados com o protocolo SMB cresceram 13,6%. As tentativas dirigidas a ligações RDP aumentaram 11,6%. (Diário de Notícias)

Estes serviços desempenham funções importantes nas redes empresariais. O RDP, por exemplo, permite o acesso remoto a computadores, enquanto o SMB é amplamente utilizado para partilha de ficheiros e outros recursos.

Quando estes serviços ficam directamente expostos à Internet, possuem palavras-passe fracas ou não recebem actualizações de segurança adequadas, podem transformar-se em portas de entrada para os atacantes.

Códigos QR tornam-se ferramenta para phishing

Outra tendência destacada é o quishing, nome atribuído ao phishing realizado através de códigos QR.

A ESET registou uma média mundial de aproximadamente 100 mil detecções mensais relacionadas com esta técnica no início de 2026. (Diário de Notícias)

O método explora uma característica simples dos códigos QR: o endereço de destino não fica imediatamente visível para quem olha para a imagem. Uma pessoa pode receber um código por correio electrónico, apontar a câmara do telemóvel e abrir uma página falsa sem perceber imediatamente para onde está a ser encaminhada.

Existe ainda outro problema. Quando o código chega através do computador de uma empresa, o trabalhador pode digitalizá-lo com o seu telemóvel pessoal, transferindo a interacção para um equipamento que eventualmente não possui os mesmos mecanismos de segurança existentes na rede empresarial.

A recomendação é tratar códigos QR inesperados da mesma forma que ligações desconhecidas: confirmar a origem antes de abrir e verificar cuidadosamente o endereço apresentado no telemóvel.

Pequenas empresas portuguesas continuam vulneráveis

O cenário é especialmente importante para as pequenas e médias empresas portuguesas. Dados do Centro Nacional de Cibersegurança citados pela ESET indicam que 95,1% das pequenas empresas adoptam pelo menos uma medida de segurança, mas apenas 4,3% implementam o conjunto completo das medidas avaliadas. (Diário de Notícias)

Outro indicador relevante é a autenticação multifactor. Apenas 36% das pequenas empresas analisadas utilizam esta camada adicional de protecção, enquanto cerca de 37% realizam uma gestão activa do risco. (Diário de Notícias)

A autenticação multifactor é particularmente importante perante o crescimento do roubo de credenciais. Mesmo que um atacante consiga obter uma palavra-passe, a existência de uma segunda forma de confirmação pode dificultar o acesso à conta.

Como reduzir o risco

Para utilizadores particulares, algumas medidas básicas continuam a fazer uma diferença significativa: manter o macOS e as aplicações actualizados, utilizar palavras-passe diferentes para cada serviço, activar autenticação multifactor e desconfiar de mensagens que solicitem dados pessoais ou credenciais.

Nas empresas, a protecção exige uma abordagem mais ampla. Gestão de actualizações, segurança do correio electrónico, autenticação multifactor, controlo dos acessos remotos e monitorização centralizada tornam-se particularmente importantes à medida que os ataques passam a combinar automação, engenharia social e inteligência artificial. (Diário de Notícias)

A própria indústria de cibersegurança está a responder através da IA. A ESET anunciou um investimento de 40 milhões de euros em tecnologias de segurança baseadas em inteligência artificial e prevê reforçar a investigação nesta área. (IT Security)

Macs deixaram de poder ser vistos como um alvo secundário

O crescimento de 65% das detecções em macOS em Portugal não significa que todos os utilizadores de Mac estejam sob ataque nem que esse aumento corresponda directamente ao número de computadores infectados. Trata-se de um indicador da actividade detectada pelas tecnologias da ESET. (Diário de Notícias)

Ainda assim, a diferença face ao crescimento mundial de 38% é significativa e demonstra que o ecossistema Apple está cada vez mais presente no radar dos atacantes.

Ao mesmo tempo, phishing, códigos QR fraudulentos, ataques contra serviços empresariais e a utilização emergente de inteligência artificial estão a tornar o panorama mais complexo.

Para utilizadores e empresas em Portugal, a principal conclusão é simples: o sistema operativo utilizado já não deve ser encarado como uma garantia de segurança. Num cenário em que os atacantes procuram sobretudo credenciais, acessos e erros humanos, actualizar equipamentos, reforçar a autenticação e adoptar uma postura preventiva tornou-se essencial.

A notícia original foi publicada em 9 de Agosto de 2026 e continua actual em 13 de Agosto. A principal fonte é o Dinheiro Vivo — Ciberataques em Macs disparam 65% em Portugal, complementada pelo ESET Threat Report H1 2026.

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